O MAUTO celebra o 50.o aniversário do Fiat 127

Rever o City Taxi criado por Pio Manzù, criativo da marca

Até 5 de setembro, o Museo Nazionale dell’Automobile di Torino (MAUTO) tem em mostra a exposição “Che macchina!” (“Que carro!”), focada no Fiat 127, que este ano celebra o 50.º aniversário. 

autonews.pt @ 5-7-2021 10:35:43

A exposição homenageia também o designer que lhe deu forma: Pio Manzoni, vulgo Manzù, filho do conceituado escultor Giacomo Manzoni.  O nome da exposição foi retirado da campanha de lançamento da primeira série e sintetiza até que ponto as inovações do 127 deixaram todos estupefactos. Este modelo viria a tornar-se um dos automóveis Fiat mais apreciados de sempre.

A figura de Pio Manzù e a génese do Fiat 127 serão o tema central de uma palestra a realizar às 9h30 (hora de Portugal continental) do dia 6 de julho no auditório do Museu. Entre os oradores, estará Roberto Giolito, Responsável do Heritage da Stellantis, acompanhado por Rodolfo Gaffino Rossipelo, antigo Diretor do MAUTO, e Luciano Galimberti, Presidente da ADI – Associação para o Desenho Industrial.


A exposição dedicada ao 50.o aniversário do Fiat 127, projetado por Pio Manzù

O Fiat 127 foi um carro verdadeiramente moderno para o seu tempo – espaçoso por dentro, compacto por fora –, tal como a ainda extremamente relevante visão de mobilidade do projetista Pio Manzù, prematuramente falecido em 1969. Esta é a combinação vencedora que faz da exposição um evento imperdível e que tem como curadores o jornalista Giosuè Boetto Cohen e Giacomo Manzoni, filho do designer. A montagem da exposição é de agradecer à Fundação Manzoni Arte e Design e ao contributo do Heritage, o departamento da Stellantis que se dedica à proteção e à promoção do património histórico das marcas Alfa Romeo, Fiat, Lancia e Abarth.

Os visitantes podem admirar os seis exemplares do utilitário apresentado em 1971 e eleito “Car of the Year” em 1972: dois 127 da primeira série, o Rustica, o Sport, o Top e o Panorama. Constituem uma pequena mas significativa seleção das múltiplas versões produzidas até 1987, num total de mais de 5 milhões de unidades produzidas.

Ao lado dos carros, estão esboços, maquetes, protótipos e projetos feitos por Pio Manzù ao longo da sua vida: desde o candeeiro Parentesi, realizado em colaboração com Achille Castiglioni em 1968, até ao revolucionário Autonova FAM de 1964, o primeiro monovolume da história moderna.

Fonte de grande fascínio é o protótipo baseado no 850 realizado para o Fiat City Taxi, agora parte da preciosa coleção de viaturas de época do Heritage habitualmente exposta no espaço multifuncional no Heritage HUB em Turim.

Todos os segredos do protótipo Fiat City Taxi baseado na mecânica do 850

Original projeto de transporte público urbano não de série, apresenta várias inovações tecnológicas dirigidas à segurança e à funcionalidade, de tal modo que pode ser definido, de pleno direito, como um autêntico concept car.

Basta dizer que a Fiat registou 15 novas patentes no desenvolvimento  do 850 City Taxi. O protótipo apresentado no Salão do Automóvel de Turim permaneceu na fase experimental, embora muitas das suas inovadoras soluções, minuciosamente desenvolvidas pelo Centro Stile Fiat, tivessem sido mais tarde utilizadas em viaturas de produção em massa.

As linhas, especialmente as do capô do motor traseiro, foram utilizadas de novo no utilitário Fiat 126 de 1972, que começou por acompanhar e depois substituir o glorioso Fiat 500.


Contexto histórico e colaboração com Pio Manzù, um dos mais criativos designers da época

Foi apresentado a 30 de outubro de 1968 no 50.o Salão do Automóvel de Turim. Eram os anos dos protestos estudantis e sociais, mas, ao mesmo tempo, as cidades viviam um período de euforia.

Nas estradas, circulavam muitos táxis baseados no genial Fiat 600 Multipla, criado por Dante Giacosa em 1956 e desenvolvido em paralelo com o extremamente popular Fiat 600, de que derivava. A partir de 1964 e até a última unidade ser produzida, em 1969, o fabricante de Turim sobrepôs o 600 e o seu natural sucessor: o Fiat 850.

No mesmo período, os designers da Fiat procuravam criar uma versão do 850 expressamente focada no transporte público para substituir o então ultrapassado 600 Multipla. Não uma mera evolução de uma viatura existente, mas sim um veículo projetado desde o início para ser usado como táxi. Na altura, a inspiração dos grandes carroçadores italianos traduzia-se em projetos para carros específicos. Contudo, neste caso, a tarefa foi confiada diretamente ao Centro Stile Fiat que, pela primeira vez, se valeu da colaboração externa de um dos mais criativos projetistas da época: Pio Manzù.

Transmissão servo assistida “Idroconvert”

O projeto começou pela mecânica do Fiat 850: para facilitar a utilização urbana intensiva, foi escolhida a versão “Idromatic”. Revelada no Salão do Automóvel de Genebra de 1966, dispunha de conversor de binário em torno da embraiagem hidráulica, para facilitar a condução em cidade.

Não era uma transmissão automática, era um sistema sem pedal de embraiagem que deixava inalteradas as quatro relações de caixa do 850 Super. Era descrita como “transmissão servo assistida” e a placa no capô ostentava a expressão “Idroconvert” que viria a substituir a denominação precedentemente utilizada no lançamento.

Dimensões compactas e design virado para o conforto

As dimensões eram compactas, mas o espaço era aproveitado ao máximo, fosse para favorecer a flexibilidade de utilização em cidade, fosse para facilitar a entrada e saída de passageiros.

O formato de dois volumes, com reduzida distância dos eixos às extremidades, apresentava linhas bastante apertadas, com capô dianteiro curto e inclinado, grandes janelas para oferecer aos passageiros um amplo panorama da cidade, e habitáculo mais alto do que o costume para melhorar o conforto a bordo. A pintura cor de laranja destinava-se a tornar mais fácil a identificação como meio de transporte público, numa altura em que os táxis ainda eram pintados de verde e preto.

Mais do que pela altura aumentada, o 850 City Taxi distinguia-se pelas assimetrias: no lado esquerdo, tinha uma porta convencional apenas para uso do condutor, enquanto no lado direito existia uma atípica e inovadora porta deslizante de comando elétrico para os passageiros.

As diferentes dimensões das portas também resultavam em medidas divergentes dos dois primeiros vidros laterais. As duas escovas do limpa-para-brisas eram particularmente longas, pois tinham de limpar um para-brisas muito mais alto do que o normal: no lado do condutor, a escova era desenhada com configuração em “pantógrafo”, constituída por dois braços. Como observado em certos veículos da altura, em repouso ficava em posição vertical. Mas a outra escova também não tinha nada de convencional, pois descrevia um arco da zona interna do vidro para a externa, ao contrário do que sucedia com os outros modelos Fiat da época.

Interiores revolucionários e comandos futuristas

O banco posterior tinha lugar para três passageiros: se fosse preciso lugar para uma quarta pessoa, para trajetos curtos, era colocado um banco rebatível extra ao lado do condutor. Usualmente, o banco rebatível estava para cima e o espaço à direita do condutor era usado para bagagem, que podia ser fixada com uma correia especial. Era possível colocar outras malas no espaço por trás do banco traseiro, por cima do motor.

O acesso a este compartimento podia ser facilmente feito pelo exterior, por meio de uma grande porta envidraçada.

As particularidades do interior foram ainda mais longe: o Fiat City Taxi exibia um futurista tabliê revestido de material deformável que englobava o painel de instrumentos e o taxímetro. Ainda hoje continua a ser considerado inovador! Dispunha ainda de um pequeno ecrã de TV, revestido com o mesmo material. O condutor podia ainda falar diretamente com a central de táxis por meio de um radiotelefone com microfone integrado na pala de sol.

Soluções inovadoras para máxima segurança

As inovações em termos de segurança foram essenciais e mais tarde viriam a tornar-se de série nas viaturas de produção em massa. Incluíam coluna de direção articulada para proteger o condutor em caso de impacto frontal, tabliê revestido de material deformável e correias para manter as bagagens no lugar. O sistema de comunicações por radiotelefone, com microfone integrado na pala de sol, era um precursor do atual sistema de mãos-livres para telemóveis. Também o televisor, localizado no meio do tabliê, pode ser considerado o precursor dos sistemas de infoentretenimento modernos.

Algumas das soluções funcionais foram recuperadas anos mais tarde, como a porta da bagageira envidraçada usada em berlinas, ou a bolsa para cartões no tejadilho, ainda hoje presente em monovolumes.

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