Lamborghini LM002: 40 anos do primeiro Super SUV da história

Em 1986, a Lamborghini desvendou o extraordinário todo-o-terreno com motor V12 que abriu caminho para a família Urus

Passaram quarenta anos desde que, em 1986, a Lamborghini revelou, no Salão Automóvel de Bruxelas, o LM002 – um veículo destinado a redefinir o próprio conceito de todo-o-terreno de alta performance. Mais do que uma máquina extrema, o LM002 foi uma arrojada declaração de intenções, que combinava o ADN dos superdesportivos de Sant’Agata Bolognese com uma capacidade em todo-o-terreno sem precedentes.

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As origens do LM002 remontam aos projetos experimentais Cheetah e LM001, desenvolvidos entre o final da década de 1970 e o início da de 1980, que levaram à decisiva perspetiva técnica de Giulio Alfieri: a recolocação do lendário motor V12 da Lamborghini na frente, para assegurar um maior equilíbrio, e um maior controlo, nos terrenos mais exigentes. Após anos de testes extremos nos desertos da Arábia Saudita, nascia o LM002 definitivo.

Animado pelo V12 Quattrovalvole do Countach, equipado com pneus Pirelli Scorpion BK especialmente desenvolvidos para o efeito, e concebido para enfrentar areia, pedras e acentuadas pendentes, o LM002 era capaz de superar os 200 km/h, um feito extraordinário para um todo-o-terreno da sua época. Fabricado até 1992, em tão somente 300 unidades, a que se junta um exemplar único com volante à direita, agora em exposição no Museu Lamborghini, em Sant'Agata Bolognese, o LM002 é, atualmente, considerado como o verdadeiro predecessor do conceito moderno de Super SUV da Lamborghini, e como a base técnica e filosófica que acabaria por dar lugar ao nascimento do Urus.

O LM002 é, ainda, um dos grandes destaques permanentes do Museu Lamborghini, em Sant’Agata Bolognese, onde, desde 9 de junho, uma instalação dedicada assinala o 40º. aniversário do primeiro Super SUV da Lamborghini.

Lamborghini Cheetah – a génese do projeto

A entrada da Automobili Lamborghini no mundo dos veículos de todo-o-terreno de altas prestações teve início com uma visão pioneira, que desafiou as convenções do sector automóvel no Salão Automóvel de Genebra de 1977. Nessa ocasião, o fabricante de Sant’Agata Bolognese revelou o Cheetah, um protótipo de tração integral que marcou uma mudança radical, tanto estilística como tecnológica, face aos modelos desportivos de gran turismo que a empresa havia produzido até então.

Desenvolvido em colaboração com a empresa norte-americana Mobility Technology International (MTI), o projeto foi originalmente concebido para ir de encontro a requisitos em termos de mobilidade tática e militar, com a ambição de atrair o interesse tanto das forças armadas dos EUA, como dos mercados do Médio Oriente. Tecnicamente, o Cheetah contava com um chassis tubular em aço, combinado com uma estrutura de carroçaria aberta em alumínio, que incorporava escotilhas de inspeção, elementos tubulares expostos, e um cockpit aberto.

O sistema de propulsão adotava uma inusual configuração de motor central traseiro para um veículo de quatro rodas motrizes deste tipo. No seu coração encontrava-se um V8 de 5,9 litros da Chrysler, capaz de disponibilizar 183 cv às 4000 rpm, e um binário de 362 Nm às 2500 rpm. O propulsor era combinado com uma transmissão automática Chrysler A727 de três velocidades, e tração integral permanente.

A configuração da suspensão contava, na frente, com duplos triângulos, molas helicoidais e uma barra estabilizadora, ao passo que a traseira adotava uma arquitetura similar, melhorada com uma barra de torsão ajustável. O sistema de travões utilizava discos dianteiros ventilados, os mesmos que os do Lamborghini Countach da época.

O Cheetah era capaz de lidar com pendentes de entre 60% e 85%, ao mesmo tempo que alcançava uma velocidade máxima de 167 km/h em estrada, e de aproximadamente 140 km/h sobre areia. A aceleração dos 0 aos 100 km/h era cumprida em apenas nove segundos, não obstante um peso a seco declarado de cerca de 2042 kg.

Embora a produção nunca tenha ido além de um único protótipo, o Cheetah tornou-se numa plataforma experimental crucial para a Lamborghini. A ousadia deste primeiro projeto traçou o caminho tecnológico que, mais tarde, definiria a abordagem da marca aos SUV de alta performance, demonstrando a determinação de Sant’Agata Bolognese de superar os limites convencionais em todo o tipo de terrenos.

Do LM001 ao LM002 (passando pelo LM003 e pelo LM004) – o desenvolvimento

O LM001 (Lamborghini Militare 1) marcou o segundo capítulo crucial na evolução dos veículos de todo-o-terreno da Lamborghini, representando a transição da natureza experimental do Cheetah para uma visão mais ambiciosa e estruturada em termos de engenharia.

Apresentado no Salão Automóvel de Genebra de 1981, o LM001 foi o primeiro resultado tangível da era Mimran, durante a qual a Lamborghini procurou diversificar a sua produção, explorando tanto o segmento dos todo-o-terrenos de luxo, como o dos veículos táticos. Sob a direção técnica do engenheiro Giulio Alfieri, o projeto foi concebido para atrair não só os entusiastas civis, como os mercados governamentais e militares, particularmente no Médio Oriente.

Ao contrário do Cheetah, o LM001 adotava uma carroçaria fechada de quatro portas com linhas angulosas, concebida para facilitar a possível integração de proteção blindada. A inovação que definiu o projeto foi a adoção do lendário motor V12 do Countach da Lamborghini: o propulsor de 4,8 litros do LP500 S, que debitava 332 cv à 6000 rpm, pese embora o primeiro, e único, protótipo, inicialmente, tenha sido equipado com um V8 de 5,9 litros derivado da AMC.

O veículo estava equipado com tração integral permanente, combinada com uma caixa automática Chrysler A-727 de três velocidades, com uma repartição do binário fortemente orientada para o eixo traseiro. Medindo 4790 mm de comprimento, e 2000 mm de largura, o LM001 oferecia uma impressionante altura ao solo de 425 mm na sua secção central. Apesar de um peso a seco que oscilava entre, aproximadamente, 2100 e 2400 kg, o veículo era capaz de alcançar os 180 km/h, e de acelerar de 0 a 100 km/h em cerca de 12 segundos.

Porém, os testes no deserto cedo revelaram uma importante limitação estrutural: a configuração de motor traseiro. Sob forte aceleração, e em subidas pronunciadas, o eixo dianteiro tornava-se excessivamente leve – o que se tornava ainda mais complicando devido à ausência de direção assistida –, e afetava negativamente a precisão da direção e a estabilidade direcional.

Ainda que nunca tenha ido além da fase de protótipo, o LM001 tornou-se um laboratório técnico fundamental para a Lamborghini. O veículo introduziu avançadas soluções de suspensão para terrenos extremos, incluindo suspensão independente com triângulos, barras de torsão amortecedores telescópicos. Os desafios encontrados em termos de repartição do peso, da dinâmica do veículo, e da refrigeração do motor, acabaram por levar os engenheiros da Lamborghini a repensar por completo a arquitetura. Tal levou diretamente ao desenvolvimento do LMA (Lamborghini Militare Anteriore), em que o motor foi, finalmente, recolocado na frente, estabelecendo as fundações para o futuro LM002 de produção.

Para superar as limitações do LM001, Giulio Alfieri, e a sua equipa, redesenharam por completo a arquitetura do veículo. A nova disposição de motor dianteiro não só melhorou a distribuição do peso, como também introduziu um mais equilibrado design de três volumes.

O LMA representou muito mais do que um simples reposicionamento da unidade motriz. Combinava soluções de engenharia derivadas da competição com uma grande capacidade em todo-o-terreno extremo. O V12 de 4,8 litros derivado do Countach, que debitava 332 cv, manteve-se, ao passo que a anterior transmissão automática da Chrysler foi substituída por uma mais robusta caixa de velocidades manual ZF de cinco relações, equipada com “redutoras”. Ao contrário dos sistemas de tração integral permanente dos protótipos anteriores, o LMA também permitia ao condutor desconectar o eixo dianteiro, e operar o veículo em modo de tração traseira.

Apresentado no Salão Automóvel de Genebra de 1982, o LMA surgiu como um verdadeiro laboratório de engenharia sobre rodas. O veículo cresceu até quase 4,9 metros de comprimento, e um peso total de aproximadamente 2600 kg, o que refletia a sua arquitetura significativamente evoluída.

Os testes foram levados ao extremo nos desertos da Arábia Saudita, onde o veículo provou ser capaz de subir pendentes de até 120%, e de alcançar próximas dos 190 km/h. Estos resultados confirmaram a validade da nova configuração técnica, transformando o LMA na base definitiva sobre a qual seria desenvolvido, e lançado em 1986, o lendário LM002.

Paralelamente a esta via de desenvolvimento, a Lamborghini também explorou soluções técnicas alternativas. O LM003 constituiu o único capítulo do programa original "Lamborghini Militare" dedicado à experimentação com motores Diesel. Desenvolvido em 1983, o protótipo foi concebido para avaliar a viabilidade de um todo-o-terreno de alta performance que oferecesse maiores eficiência e facilidade de utilização, por comparação com os potentes, mas gastadores, motores V12 de gasolina.

Para este projeto, a Lamborghini recorreu ao especialista italiano VM Motori, equipando o LM003 com um cinco cilindros turbodiesel que debitava 150 cv. Não obstante o apelo teórico de uma variante animada por um motor Diesel, os testes rapidamente demonstraram que a potência disponível era insuficiente para um veículo que rondava as três toneladas de peso, e o projeto nunca passou da fase de protótipo.

Em 1985, a Lamborghini apresentou o LM004, um protótipo experimental ainda mais extremo, equipado com um motor de origem marítima. O projeto representou uma tentativa de ampliar ainda mais os limites técnicos da gama LM, explorando soluções de motorização inspiradas na competição náutica.

No coração do LM004 encontrava-se o Lamborghini L804, a versão de competição do motor V12 da marca, desenvolvido para lanchas offshore. Debitando mais de 420 cv, e um binário de 589 Nm logo às 2000 rpm, o enorme motor de sete litros requeria um chassis alongado, por comparação com o do LM002 que posteriormente entraria em produção.

Apesar do seu extraordinário potencial em termos de performance, o projeto LM004 acabou por ser abandonado. O peso excessivo do motor marítimo, e as preocupações com a sua fiabilidade, tornavam-no, globalmente, menos eficaz do que o V12 de 5,2 litros que acabou por ser selecionado para o LM002 de produção.

LM002 – o produto definitivo

O Lamborghini LM002 representa um capítulo único na história do automóvel. Produzido entre 1986 e 1992, foi o primeiro verdadeiro Super SUV do mundo, combinando a performance de um superdesportivo com uma capacidade em todo-o-terreno sem precedentes. Desvendado no Salão Automóvel de Bruxelas de 1986, o LM002 de imediato chamou a atenção graças à sua presença imponente, e a um carácter sem concessões.

A chave do emblemático estatuto do LM002 era o seu sistema de propulsão, diretamente derivado do do lendário Countach Quattrovalvole. O motor V12 a 60 graus de 5167 cc, equipado com quatro válvulas por cilindro, debitava, aproximadamente, 450 cv (420 cv segundo a especificação SAE NET), o que permitia ao todo-o-terreno da Lamborghini, com mais de 2700 kg, alcançar uma velocidade máxima de 210 km/h. Inicialmente equipado com seis carburadores Weber, o motor evoluiu, mais tarde, para uma versão com injeção eletrónica de combustível, introduzida em 1989, e homologada para o mercado dos EUA.

O sistema de transmissão contava com uma caixa manual ZF de cinco velocidades com redutoras, e com tração total inserível pelo condutor, o que permitia ao LM002 enfrontar pendentes de até 120%. A transmissão incorporava três diferenciais autoblocantes, com taxas de bloqueio de 25% na frente, e de 75% atrás. O diferencial central também contava com uma taxa de bloqueio de, 75%, e podia ser mecanicamente bloqueado até 100%, soluções diretamente derivadas da experiência adquirida durante o desenvolvimento dos protótipos LMA.

O LM002 não era apenas excecionalmente rápido, como havia sido concebido para lidar com condições de utilização extremas. O seu chassis tubular em aço reforçado era capaz de suportar forças de até oito vezes a aceleração da gravidade, enquanto que o sistema de suspensão totalmente independente, com triângulos sobrepostos, proporcionava um generoso curso das rodas, com 130 mm em compressão, e 110 mm em extensão. O veículo também estava apto a enfrentar cursos de água de até 82 cm de profundidade sem necessitar de preparação especial.

A respaldar as extraordinárias capacidades do LM002 estavam os pneus Pirelli Scorpion BK, especificamente desenvolvidos para o veículo no início da década de 1980. Estos pneu tornaram-se famosos pelas suas distintivas "orelhas" nos flancos, especialmente desenhadas para permitir que o LM002 flutuasse de forma mais efetiva sobre as dunas do deserto, ao mesmo tempo mantendo a precisão direcional sobre areia. Também podiam funcionar em condições de rolamento sem ar enquanto lidavam com elevadas cargas laterais.

A Pirelli desenvolveu o Scorpion BK com uma carcaça ultrarrobusta, com materiais de aramida anticorte, ao passo que o desenho da banda de rolamento foi diretamente inspirado no dos pneus de competição de rali, wm particular no do Pirelli Intermedio Montecarlo, utilizado em provas do Campeonato do Mundo de Ralis. O resultado foi um dos primeiros exemplos de transferência de tecnologia dos desportos motorizados para veículos de estrada.

Versões todo-o-terreno de luxo e especiais

Apesar do seu design exterior anguloso, e das suas imponentes dimensões, o habitáculo do LM002 representava o topo de luxo artesanal da sua época. O interior contava com revestimentos em pele de primeira qualidade, e com aplicações em madeira nobre, ao passo que o equipamento incluía ar condicionado, vidros escurecidos em azul, um sistema de som de alta-fidelidade integrado no tejadilho, e, a pedido, até um televisor. O LM002 oferecia espaço para quatro ocupantes no habitáculo, enquanto que a ampla zona de carga traseira enfatizava ainda mais a extraordinária versatilidade do veículo.

Em 1987, o LM002 tinha um preço de aproximadamente 169 milhões de liras italianas, refletindo tanto a sua exclusividade tecnológica, como a ausência de quaisquer concorrentes diretos. A produção terminou em 1992, depois de terem sido construídos, no total, 301 unidades, incluindo os veículos destinados ao mercado norte-americano, onde o LM002 chegou oficialmente a partir de 1989.

O LM/American representou a evolução tecnológica do LM002. Fabricado numa série limitada de apenas 60 unidades, esta versão foi especificamente reformulada para cumprir com as estritas normas de emissões dos EUA e da Califórnia.

En 1989, o lendário piloto de ralis, e diretor de rela-ções públicas da Lamborghini, Sandro Munari, participou na competição de resistência norte-americana "One Lap of America", uma prova exigente, que abarcava aproximadamente 10 000 milhas através de vários estados dos EUA. O veículo utilizado na corrida foi um LM002 com especificação de produção em série, idêntico à versão homologada para o mercado americano.

A evolução mais significativa introduzida no LM/American foi o sistema de alimentação de combustível do motor V12 de 5167 cc. Para cumprir as normas de emissões cada dia mais restritivas, que os carburadores Weber tradicionais já não podiam satisfazer, a Lamborghini desenvolveu um avançado sistema de injeção eletrónica multiponto.

O veículo adotou o sistema Lamborghini LIE 52/12, desenvolvido internamente com o apoio da empresa EFI, sedeada em Bolonha, depois de terem sido avaliadas, e descartadas, soluções externas mais onerosas. Também foram introduzidos conversores catalíticos, para reduzir as emissões nocivas, e garantir o cumprimento das normas em todos os estados dos EUA. Nesta configuração, o V12 com injeção de combustível oferecia uma potência certificada de 420 c√ SAE NET.

Além da eletrónica do motor, o LM/American também contava com diversas adaptações relacionadas tanto com os requisitos normativos, como com a revista configuração técnica. Devido às exigências em termos de espaço dos componentes da nova injeção de combustível, e às normas de segurança, a capacidade do depósito de combustível foi reduzida de 280 litros, nas versões com carburador, para 180 litros.

Hpje, o LM002 continua a ser uma das expressões mais puras da filosofia sem compromissos da Lamborghini: um veículo extraordinário e pouco convencional, que antecipou o mundo dos SUV de ultraelevada performance décadas de o segmento se estabelecer a nível mundial.

Um legado vivo: do LM002 ao Urus

O LM002 inaugurou um caminho que, simplesmente, não existia naquela época, tornando-se no verdadeiro precursor dos modernos SUV de luxo de alta performance. Décadas mais tarde, este legado foi reinterpretado com a revelação do protótipo Urus, em 2012, um SUV arrojado e musculado, que abertamente fazia referência ao LM002, ao mesmo tempo que traduzia o ADN da Lamborghini num formato moderno e versátil.

Com a estreia do Urus de produção, em 2017, a Lamborghini redefiniu, uma vez mais, o segmento ao criar o Super SUV moderno. Graças a valores de performance de referência – incluindo uma velocidade máxima de 305 km/h, que fez dele o SUV mais rápido do mundo por alturas do seu lançamento –, o Urus confirmou a legitimidade da Lamborghini numa categoria que o LM002 havia, corajosamente, explorado décadas antes.

Hoje, o LM002 continua a ser preservado e valorizado pela Lamborghini Polo Storico, o departamento dedicado a salvaguardar o legado histórico de la marca. Através de serviços de restauro, de certificações de autenticidade, e de pesquisa, recuperação, e reconstrução, de peças de substituição originais, o Polo Storico presta apoio aos proprietários do LM002 de todo o mundo, ao mesmo tempo ajudando a preservar um dos mais emblemáticos modelos da história da Lamborghini.

Entre as suas iniciativas mais significativas está a colaboração com a Pirelli, para a recriação dos históricos pneus Scorpion BK, originalmente desenvolvidos de forma específica para o LM002 no início da década de 1980, e que, agora, voltam a estar disponíveis, a nível mundial, através da rede oficial de concessionários da Lamborghini.

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