Renault 5 Turbo: O mito nasceu há 40 anos

O mítico Renault 5 Turbo comemora 40 anos e continua a afirmar-se como um dos automóveis mais apaixonantes preservados pela nossa memória! Mas sabe quais são as suas origens? Imaginava que a ideia de o produzir surgiu dentro de um Renault 16? E que era fabricado como um “puzzle”, em três fábricas diferentes? E que a sua carreira de sucesso no automobilismo não se limitou aos ralis? E que, também em Portugal, o 5 Turbo ainda hoje é um dos automóveis recordados com mais saudade pelos fãs de ralis, graças ao “amarelinho” da Renault da década de 80? Todas estas estórias e muitas outras curiosidades nas linhas que se seguem…

autonews.pt @ 14-5-2020 18:14:06

O Renault 5 Turbo é e será, para sempre, um dos mais emblemáticos modelos construídos pela Renault.

Apresentando no Salão Automóvel de Paris, em outubro de 1978, quase como um “ovni”, ainda como protótipo estático, o modelo granjeou de imediato suspiros e exclamações, que anteciparam o sucesso, dando-lhe o “boost” necessário para o tornar um automóvel de referência e um desportivo de antologia naquela altura, com a mesma força que hoje é já idolatrado clássico.

A comemorar 40 anos, o modelo revolucionou o mundo dos desportivos, deixando também uma marca importante na história do desporto automóvel, influenciando uma geração que o viu nascer e foi alimentada pelo sonho de o conduzir e o privilégio de o ter, ainda que, efetivamente, só por uma grande minoria.

Mas como quase sempre acontece com todos os grandes projetos que fazem história, também por detrás deste há uma envolvência especial. Voltemos atrás no tempo, revisitando a sua história…

Tudo começou ao volante de um… Renault 16!

O Renault 5 Turbo nasceu a partir de um… Renault 16! Bem, talvez a frase seja um pouco exagerada, mas a verdade é que a génese do pequeno-grande desportivo da Renault começou a desenhar-se dentro de um Renault 16, numa viagem noturna entre Dieppe e Billancourt.

Estávamos em 1976 e dentro do confortável R16 seguiam Jean Terramorsi, diretor de produto e responsável pelo desenvolvimento de séries limitadas dos modelos Renault, e o seu adjunto, Henri Lherm. Após mais um dia de trabalho e no regresso a casa, o tema da conversa era, claro, sobre a Renault, mas sobre um Renault muito especial, que completaria uma gama e dela se tornaria o expoente máximo, ao mesmo tempo que poderia brilhar também na competição: o Renault 5 equipado com turbocompressor, ou seja, a primeira viatura francesa equipada, de origem, com esta tecnologia produzida em série.

Ninguém melhor que Terramorsis percebia os esforços desenvolvidos pela Renault para ser competitiva na Fórmula 1 e nas “24 Horas de Le Mans”, com a aposta na, então, inovadora tecnologia turbo. A ideia da criação de um Renault 5 Turbo começava, definitivamente, a ganhar forma, e não tardaria a ser apresentada aos responsáveis de topo da hierarquia da Régie, nomeadamente, a Bernard Hanon, então administrador-delegado da Renault, e a Gérard Larousse, diretor da Renault Sport. Da aprovação da ideia ao início da produção… secreta, foi um pequeno passo!

Projeto nº 822: lugar aos engenheiros

Entre 1976 e o Salão Automóvel de Paris de 1978, Michel Têtu e a sua equipa de engenheiros em Berex, Dieppe (França), foram chamados para tratar do desenvolvimento do chassis e da mecânica do futuro Renault 5 Turbo, ou, por outras palavras, para darem vida ao protótipo sob grande secretismo. 

Ao mesmo tempo, no Centro de Estilo da Renault de Rueil-Malmaison, na fábrica da Alpine, em Dieppe e da Heuliez, em Cerizay, todos os esforços se concentravam também, dia e noite, no desenvolvimento do projeto, ao nível do chassis e industrialização, sem esquecer o design, para o qual o estilista italiano Bertone, também foi chamado. O projeto com nome de código “822” estava em marcha…

E foi um carro preto, guiado então pelo piloto Guy Fréquelin, que foi revelado à comunicação social, na pista de Lédenon, em novembro de 1978, um mês após o lançamento do protótipo exposto no Salão Automóvel de Paris. A ele seguiram-se outras evoluções, denominadas “822-01”, “822-02” e “822-03”, esta última, a que acabaria por se estrear na competição, na Volta à Itália de 1979, com o mesmo Guy Fréquelin ao volante. Mas apesar da desistência com problemas de motor, o projeto provava estar pronto para enfrentar os desafios da competição, ao mesmo tempo, que, espectadores e jornalistas, ficavam rendidos às impressionantes formas da carroçaria do R5 Turbo.

Renault 5 Turbo: Construído como um “puzzle” em três diferentes fábricas


Sabia que o emblemático Renault 5 Turbo era um “puzzle” construído em três fábricas diferentes? E imaginava que, na sua primeira versão, os clientes só podiam escolher duas cores: carro azul ou vermelho? Voltamos a remexer no baú, para recuperar a história e algumas das curiosidades que ajudaram a tornar tão especial o icónico desportivo da Renault, agora com quatro décadas de história…

Início da produção em série: bem-vindo Renault 5 Turbo!

A ideia do projetar o Renault 5 Turbo nasceu em 1976, mas foi só, em janeiro de 1980, que foi apresentada a versão definitiva do irreverente modelo que havia de ficar na história da Renault, mas também da indústria automóvel, precisamente quatro meses antes de se iniciar oficialmente a sua produção.

No dia da apresentação, perante a comunicação social, o R5 Turbo revelou-se um automóvel singular, impressionante nas formas, que o tornavam realmente único. Com o trem dianteiro derivado do Renault 5 Alpine, suportado por triângulos transversais e barras de torsão e com um novo “berço” traseiro, 23 cm mais largo que o original do 5 Alpine, a secção traseira rapidamente sobressaiu pela imponência, numa silhueta que, apesar da disparidade da largura entre a frente e traseira, se revelava, realmente, harmoniosa.

A ela, acoplava-se um generoso motor central sobrealimentado, de 1397 cm3 (ou de 2 litros, depois de adotado o coeficiente de correção de 1.4 por ser sobrealimentado), alimentado por um turbo Garret T3 (com 0,9 bar), que fazia o motor debitar 160 cv às 6.000 rpm e 214 Nm de binário às 3250 rpm. 

Com toda uma panóplia de inovações derivadas da tecnologia “Turbo”, como a árvore de cames dissimétrica, o permutador ar/ar, a injeção Bosch K-Jetronic e a embraiagem bi-disco, a que se associaram um potente sistema de travagem de quatro discos ventilados – com a curiosidade de serem derivados do Citroën CX, com pinças do Renault Fuego – o Renault 5 Turbo prometia ser um concentrado de emoções.

Renault 5 Turbo: o “amarelinho da Renault” que fez sucesso em Portugal!

Entre 1984 e 1986, o Renault 5 Turbo foi também um dos maiores protagonistas do do automobilismo português, pela mão da saudosa equipa “Renault Galp”, criada pela Renault Portuguesa e alimentada pelos sucessos conquistados pela dupla Joaquim Moutinho/Edgar Fortes. Se dúvidas houvesse quanto ao potencial do diabólico R5 Turbo “Tour de Corse”, a conquista de dois títulos absolutos e 16 vitórias do “amarelinho da Renault” (como popular e carinhosamente era conhecido), durante as três épocas que militou no Campeonato Nacional de Ralis, elas ficaram dissipadas…

Por outras palavras, em 1984, a Renault Portuguesa apostou forte no automobilismo nacional e partiu à conquista do Campeonato Nacional de Ralis… com um Renault 5 Turbo!

Equipa bem-nascida

A história da equipa “Renault Galp”, como uma das que mais fortemente marcou o panorama do desporto automóvel português, iniciou-se em 1983. Se, a nível internacional, a Renault estava, nessa altura, particularmente empenhada na F1, também não tinha descurado o seu ADN de ralis. O Renault 5 Turbo apresentava-se como uma verdadeira solução competitiva para as filiais ou equipas privadas que quisessem apontar para a glória no seio dos ralis.

No fundo, era como “juntar o útil ao agradável”, num projeto que teria, para além da base sólida de trabalho materializada no Renault 5 Turbo, também todas as condições financeiras, logísticas e materiais para vingar, ao mesmo tempo que se destacava por marcar a aposta de uma marca oficial ao popular fenómeno dos ralis, que se vivia em Portugal. 

Depois do “sinal verde” de aprovação do projeto dado por Louis Brun, então Administrador-Delegado da Renault Portuguesa, a criação de um Departamento de Competição, sedeado na zona industrial de Cabo Ruivo, nas imediações do rebuliço citadino de Lisboa, constituiu o primeiro passo na génese da equipa que havia de marcar os ralis em Portugal.

Um passo decisivo para preparar o sucesso, mas que só poderia funcionar em pleno com a articulação perfeita de outros vetores. Um deles foi a constituição de uma equipa profissional, dedicada 100% ao projeto, onde Joaquim Moutinho, piloto reconhecidamente rápido com 11 anos de experiência e diversos títulos no currículo, se afirmava como peça fundamental no “xadrez”. Mas longe de ser a única.

1984: Estreia auspiciosa e final inglório

Definidos os meios humanos que dariam o corpo à estrutura, o Departamento de Competição tratou de assegurar os meios técnicos que suportariam o projeto. Mas, nesse campo, não foi necessário partir de uma “folha em branco”…

Bastou aproveitar e ampliar os meios da equipa semi-oficial Recar (um concessionário Renault hoje já extinto), que entre 1982 e 1983, colocou os dois primeiros Renault 5 Turbo a correrem em ralis em Portugal (com a dupla Manuel Gomes Pereira/José Nobre e também Joaquim Moutinho/Pina de Morais), antes de diversos problemas obrigarem à interrupção do projeto.

Com um Renault 5 Turbo “Tour de Corse” pronto para entrar em ação, um outro Renault 5 Turbo “Cévennes” operacional como carro de treinos, e o apoio da Renault Sport garantido em matéria de acesso privilegiado a informação sobre o modelo, a evoluções técnicas e ainda cedência de técnicos para os momentos mais importantes, a equipa “Renault Galp” estava finalmente oleada e tinha tudo para iniciar a aventura no “Nacional de Ralis” pela porta grande…

E se assim era legítimo pensar, a prática confirmou a teoria, quando, Joaquim Moutinho e Edgar Fortes entraram com o “pé direito” no Campeonato Nacional de Ralis de 1984, vencendo o Rali Sopete/Póvoa de Varzim e o Rali das Camélias e se assumiram como a nova referência nesta competição.

A desistência na prova seguinte e mais importante do ano, o Rali de Portugal, não abrandou o ânimo e empenho da equipa em somar vitórias, às quais regressou na prova seguinte, o Rali da Figueira da Foz. Contudo, problemas de motor, elétricos e de transmissão fizeram com que o Renault 5 Turbo da equipa oficial Renault, até perto do final do campeonato, alternasse entre as desistências (Volta Galp a Portugal, Rali Vinho Madeira, Rali de Castelo Branco e Rali Lois Algarve) e os triunfos (Rali Internacional Rota do Sol, Rali S. Miguel Açores e Rali Alto Tâmega).


Mas, a verdade é que quando, apesar de tudo, tinha todas as condições para fechar com chave de ouro a sua primeira época, selando-a com um título, a equipa “Renault Galp” foi alvo de sabotagem na última prova do ano (Rali Lois Algarve), deixando todas as suas aspirações no título no ano da estreia cravadas numa barra de ferro colocada propositadamente por alguém no meio da estrada, que, quis o destino, furasse os pneus do R5 Turbo, obrigando-o a desistir e a abdicar de um cetro que parecia certo.

1985: Primeiro título com sabor a “vingança”

Depois dos momentos de glória, mas também de desilusão no ano de estreia, a equipa “Renault Galp” apareceu com aspirações renovadas em 1985.

Apesar de tudo, as mudanças na formação foram cirúrgicas e o percurso nos quatro primeiros ralis do Campeonato Nacional de Ralis foi em tudo semelhante ao do ano anterior: três vitórias e uma desistência (novamente no Rali de Portugal).

Mas, daí para a frente e nas restantes provas do campeonato, a formação do “amarelinho da Renault” mostrou que o Renault 5 Turbo “Tour de Corse” podia agora ostentar outro índice de fiabilidade, concluindo todos os sete ralis seguintes, quatro vezes das quais no lugar mais alto do pódio.

1986: Bi-campeonato e última vitória do Renault 5 Turbo no WRC

O último ano da equipa “Renault Galp” e do Renault 5 Turbo ao seu serviço voltou a ter como arena o Campeonato Nacional de Ralis. Numa altura, em que a Renault já tinha uma nova arma, o Maxi Turbo, naturalmente mais evoluído que a versão “Tour de Corse”, a equipa portuguesa manteve-se fiel à versão tradicional. E… não se deu mal!

A renovação na aposta do R5 Turbo “Tour de Corse” permitiu controlar um dispendioso investimento, e mesmo sem a adoção das suspensões do “Maxi” pedidas por Joaquim Moutinho, o título voltou a sorrir à equipa.

Para a história ficou também o triunfo “agridoce” no dramático Rali de Portugal, onde todas as principais equipas oficiais do Campeonato do Mundo de Ralis optaram pelo abandono em bloco após a tragédia de Sintra, e onde a equipa portuguesa “Renault Galp”, com Joaquim Moutinho e Edgar Fortes, fez história, ao dar a quarta e última vitória no “Mundial de Ralis” ao Renault 5 Turbo!

O “segredo” do sucesso

Não há fórmulas mágicas para o sucesso, para além da junção de fatores como a dedicação, empenho, trabalho árduo e profissionalismo. Se a tudo isto juntarmos talento, estão criadas as bases para o êxito de qualquer projeto. E foi precisamente na junção de todos estes fatores que assentou o sucesso da equipa “Renault Galp”, onde uma eficiente organização interna permitiu alcançar resultados extremamente positivos (dois títulos e 16 vitórias no “Nacional” de Ralis) e deixar uma marca vigorosa e inesquecível no automobilismo português.

Na prática e em termos operacionais, o Departamento de Competição onde “nasceu” e foi “criado” o Renault 5 Turbo da equipa “Renault Galp” dependia da Direção de Comunicação e Relações Exteriores da Renault Portuguesa, canal privilegiado para otimizar a ligação e coordenação com a Renault Sport.

Desde cedo, ficou decidido que os motores utilizados, que na sua máxima evolução chegaram aos 300 cv, seriam revistos em França, pelos técnicos da Bozian, ao fim de cada 800 km de utilização, para prevenir eventuais problemas.

E essa terá sido, porventura, uma das decisões que mais contribuíram para o sucesso, libertando a equipa para se dedicar à preparação do carro e otimização das afinações técnicas, que, não raras vezes, chegaram mesmo a ser aproveitadas pela Renault Sport, com o Renault 5 Turbo português a servir de laboratório à “casa-mãe”. 

Por tudo isto, é fácil perceber que o sucesso da equipa “Renault Galp” e do Renault 5 Turbo tripulado pela dupla Joaquim Moutinho/Edgar Fortes não podia ser mesmo obra do acaso, e de explicar também porque, 34 anos depois do final do projeto, a equipa está ainda tão viva na memória de todos os fãs dos ralis.

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