A Mazda e a Cortiça – no MX-30 a tradição e o futuro juntos

Entre o Alentejo e Hiroshima

Estivéssemos num tradicional jogo de associações e uma vez mencionada a palavra “cortiça”, a primeira coisa que muito provavelmente nos viria à ideia seria, eventualmente, “vinho”, pelo que se a resposta fosse “automóvel” poderia soar um pouco fora de contexto.

autonews.pt @ 22-12-2020 14:28:34

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Mas não tanto para a Mazda, para quem esta ligação faz todo o sentido, já que não só utiliza este recurso no habitáculo do seu novo SUV MX-30 e-Skyactiv , como pelo facto da sua própria actividade industrial se ter iniciado com o processo de transformação da cortiça, então como Toyo Cork Kogyo Co. Ltd., no já longínquo ano de 1920.

Cem anos passados desde essa data, com celebrações iniciadas a 30 de Janeiro último, a aposta da hoje Mazda Motor Corporation centra-se exclusivamente na indústria automóvel e tem como mais recente expoente o novo MX-30, o seu primeiro veículo 100 por cento eléctrico.

Automóvel tecnologicamente evoluído nos mais diversos domínios, o MX-30 representa ainda o regresso da cortiça ao universo Mazda, na concepção de secções específicas do seu interior – revestimento da consola central flutuante e como reforço do interior da zona dos seus puxadores das portas – numa aplicação com grande impacto visual e de enorme qualidade.

A recuperação daquele que foi o seu primeiro material de sempre faz-se através de um novo SUV de características inéditas, proposta que chegou aos mercados na segunda metade deste muito atípico ano de 2020 – o seu lançamento em Portugal teve lugar em Setembro último – sublinhando o facto de a Mazda ser o único construtor automóvel no mundo que iniciou a sua actividade na indústria de transformação desta matéria-prima, de cunho tão tipicamente português.

Envolvidas nesse inédito processo de aplicação no habitáculo deste automóvel em particular estão, não só a Mazda Motor Corporation, como duas outras entidades nipónicas, a Uchiyama Manufactoring Corporation e a Daikyo Nishikawa Corporation.

Mas a verdadeira fornecedora deste material sustentável é a bem portuguesa Corticeira Amorim SGPS, S.A, reputada holding portuguesa na área da transformação de produtos de cortiça e líder mundial do sector, num processo feito através da sua subsidiária Amorim Cork Composites, unidade de negócio que se dedica ao desenvolvimento de produtos, soluções e aplicações para as mais diversas actividades e sectores de elevada sofisticação, da indústria aeroespacial ao mundo automóvel, entre outras.

Material de elevada sustentabilidade, a cortiça confere níveis incrementados de conforto, de impermeabilidade e de isolamento térmico, acústico e anti-vibrações.

A sua aplicação no mundo Mazda do Século XXI

A ideia de usar cortiça no habitáculo de um automóvel pode parecer irrealista, mas na verdade faz todo o sentido em termos de minimização de efeitos nocivos no meio ambiente.

Quando o projeto MX-30 arrancou, naquela que é a primeira real proposta nas iniciativas de eletrificação da Mazda, definiu-se como segmento-alvo do novo modelo os clientes com uma elevada consciência ambiental, pelo que o recurso à cortiça foi, assim, visto como uma das maiores prioridades desse target, sublinhando a génese da sustentabilidade pela qual a Mazda é reconhecida.

Material de elevado teor ecológico, como produto único gerado pela natureza, a cortiça tem hoje inúmeras aplicações, gerando diferentes sobras, como a inerente à produção de rolhas de garrafas, nomeadamente na indústria vinícola. Para além disso, é uma matéria-prima de características quentes, de toque suave e visual encantador, sendo um produto familiar para o comum dos mortais, entre eles os potenciais clientes portugueses do novo Mazda MX-30.

Como é sabido, a cortiça provém da casca dos sobreiros, em operações de extração plurianuais realizadas em cada Verão e com timings muito próprios, não implica qualquer abate dos exemplares da espécie, ao mesmo tempo que mantém intocável o inerente processo de fotossíntese.

A cortiça presente no habitáculo do novo Mazda MX-30 provém do excedente resultante da indústria da produção de rolhas (também chamadas “sobras”), sendo na sua grande maioria de origem portuguesa, mas também obtida em sobreiros japoneses, contribuindo para um substancial menor desperdício e, por consequência, uma diminuição dos níveis de CO2 emitidos para a atmosfera, caso as mesmas transitassem para processamento e posterior destruição.

Mantendo a mesma qualidade intrínseca à das mais comuns rolhas de cortiça, esse excedente é, depois, alvo de transformação segundo um conjunto das mais evoluídas técnicas, de modo a se tornar num elemento decorativo de excelência no interior do MX-30, visualmente diferenciador e muito agradável ao toque, ao mesmo tempo que se garante a mesma durabilidade dos demais elementos que compõem os habitáculos dos restantes modelos Mazda em comercialização.

Dos obstáculos iniciais à passagem à produção

Em termos de aplicação, os designers da Mazda estavam cientes dos obstáculos técnicos que iriam encontrar, nomeadamente por se tratar de um material natural com uma enorme sensibilidade, havendo que pesar todos os prós e contras, em termos do material em si e dos processos com vista à sua aplicação como revestimento, para se alcançar a necessária resistência à abrasão e às demais influências do quotidiano no interior de um automóvel.

Feitos os testes e ultrapassadas as condicionantes iniciais, passou-se para a fase de produção, merecendo uma ampla aceitação e reconhecimento de toda a empresa, trazendo ao presente um passado longínquo em que a actividade da agora Mazda se iniciou com a cortiça.

Matéria-prima natural, a cortiça regista enormes níveis de resistência. Um exemplo é o facto de que antes da existência de isolantes com base em borracha sintética ou resina, peças como juntas de cabeça para motores e selagens, entre outras, recorriam à cortiça.

Ainda hoje com aplicação real fora do olhar dos clientes, nomeadamente no isolamento térmico e sonoro, a cortiça surge agora visualmente pela mão da Mazda, apostada em colocá-la em destaque no interior do seu novo MX-30, permitindo que os clientes possam ter um contacto direto e real com este material tão especial.

Para o efeito, após um processo de redução a grânulos de diferentes dimensões desses excedentes, segue-se todo um processo de prensagem, a partir do qual se geram novas folhas de cortiça, após serem preenchidos os espaços entre os grânulos maiores com grânulos mais pequenos, num produto final com capacidades acrescidas a vários níveis.

Este método foi especialmente desenvolvido levando em linha de conta as propriedades requeridas para a sua integração no interior do MX-30, nomeadamente ao nível de resistência a uma utilização normal.

Presentes na consola central flutuante e no revestimento do interior dos puxadores das portas do novo MX-30, em ambas as configurações interiores disponíveis no mercado (Vintage Leatherette ou Modern Confidence) os elementos em cortiça são, depois, moldados no formato da superfície e em simultâneo com cada peça em que se inserem, sendo, em seguida, adicionada uma resina especial que penetra na própria cortiça.

Para obviar eventuais problemas em termos da manutenção das cores originais, elemento que sofre enormemente pela exposição aos raios UV, procede-se a uma descoloração da cortiça, sendo depois repintada.

Findo esse processo, a consola central flutuante e os painéis das portas do novo MX-30 seguem o seu trajecto para a integração dos restantes componentes – as diferentes tecnologias e os respetivos circuitos eléctricos – até atingirem a linha de montagem da fábrica de Ujina Nº1, em Hiroshima, onde se produz, desde Maio último e em exclusivo mundial, o seu primeiro modelo 100 por cento eléctrico.

Com o presente Centenário da Mazda a decorrer – celebra-se até 30 de Janeiro de 2021 – o regresso da cortiça a um lugar de destaque mostra-se perfeito no Mazda MX-30, recordando as origens de uma empresa que se está já a lançar nos próximos 100 anos, mantendo a sua filosofia de constante desafio às convenções, através de soluções por vezes revolucionárias, à semelhança de tantas ao longo da sua história, muitas delas vistas como fora da caixa. Caso ainda estivesse vivo, Jujiro Matsuda daria, decerto, a sua aprovação a este regresso da cortiça!

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